Aços Inoxidáveis na Soldadura
Os aços inoxidáveis constituem uma família de ligas Fe-Cr (mínimo 10,5 % Cr) cuja resistência à corrosão resulta da formação espontânea de uma camada passivante de Cr₂O₃ na superfície. A sua soldadura exige o conhecimento das transformações metalúrgicas específicas de cada família, sob pena de comprometer a resistência à corrosão ou a integridade mecânica da junta.
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1. Classificação e Composição
| Família | Estrutura | Composição típica | Características |
|---|---|---|---|
| Austeníticos (ex. 304, 316) | CFC | 18 % Cr, 8–12 % Ni; 316 contém 2 % Mo | Não magnéticos; excelente tenacidade; não temperáveis |
| Ferríticos (ex. 430, 444) | CCC | 17–29 % Cr; baixo Ni | Magnéticos; menor tenacidade; não temperáveis |
| Martensíticos (ex. 410, 420) | CCC→TCC | 12–18 % Cr; alto C | Magnéticos; temperáveis; dureza elevada |
| Duplex (ex. 2205, 2507) | CFC + CCC | 22–25 % Cr, 4–7 % Ni, 3 % Mo | Bifásicos; alta resistência; resistência à corrosão por picadura |
| Endurecidos por precipitação (ex. 17-4 PH) | Variável | Cr, Ni + Cu, Nb, Ti | Alta resistência mecânica após tratamento térmico |
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2. Diagrama de Schaeffler e Previsão de Microestrutura
O diagrama de Schaeffler permite prever a microestrutura do metal depositado em função dos equivalentes de crómio (Creq) e níquel (Nieq):
$$Cr_{eq} = Cr + Mo + 1{,}5 Si + 0{,}5 Nb$$
$$Ni_{eq} = Ni + 30C + 0{,}5 Mn$$
A posição no diagrama indica se o metal depositado será austenítico, ferrítico, martensítico ou duplex. Para aços austeníticos, recomenda-se um teor de ferrite delta (δ) entre 3 e 8 FN (Ferrite Number) no metal depositado, para evitar fendilhamento a quente (hot cracking) sem comprometer a resistência à corrosão.
O teor de ferrite é medido com ferritoscópio (método magnético, calibrado segundo EN ISO 8249) ou determinado pelo diagrama de WRC-1992, mais preciso que o de Schaeffler para aços duplex e austeníticos com alto azoto.
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3. Sensibilização — O Principal Risco nos Austeníticos
A sensibilização (ou sensitização) ocorre quando o aço austenítico é exposto à gama de temperaturas 425–850 °C, intervalo em que o crómio precipita sob a forma de carbonetos de crómio (Cr₂₃C₆) nos contornos de grão:
$$Cr_{23}C_6 \rightarrow \text{empobrecimento em Cr nas zonas adjacentes ao contorno de grão}$$
A zona empobrecida (< 10,5 % Cr) perde a passivação e fica susceptível à corrosão intergranular. Na ZAC, esta precipitação ocorre tipicamente a 5–15 mm da linha de fusão.
Medidas preventivas:
- Aços de baixo carbono — Utilizar graus L (ex. 304L, 316L; C ≤ 0,03 %). Com menos carbono disponível, a precipitação de Cr₂₃C₆ é suprimida.
- Aços estabilizados — Utilizar graus com Ti (321) ou Nb (347): estes elementos têm maior afinidade para o carbono do que o Cr, formando TiC ou NbC em vez de Cr₂₃C₆.
- Controlo do aporte térmico — Minimizar o tempo na gama de sensibilização. Aportes térmicos baixos e temperatura entre passes ≤ 150 °C para austeníticos.
- Recozimento de solubilização pós-soldadura — Aquecimento a 1050–1100 °C seguido de arrefecimento rápido em água redissolve os carbonetos e restaura a passivação.
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4. Aços Ferríticos — Fragilização e Crescimento de Grão
Os aços ferríticos não sofrem sensibilização da mesma forma que os austeníticos, mas apresentam dois riscos específicos:
- Crescimento de grão irreversível na ZAC junto à linha de fusão (T > 1100 °C): o grão ferrítico cresce rapidamente e não refina por transformação de fase no arrefecimento, reduzindo significativamente a tenacidade.
- Fragilização a 475 °C: exposição prolongada nesta temperatura provoca precipitação de uma fase rica em Cr que fragiliza o aço. Relevante em TTPS.
Recomendações: minimizar o aporte térmico; usar consumíveis com adições de Ti ou Nb para estabilização; considerar TTPS a 750–800 °C (recozimento) para alívio de tensões sem fragilização.
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5. Aços Martensíticos — Pré-aquecimento Obrigatório
Os aços martensíticos têm elevado CE e transformam austeníte em martensite durante o arrefecimento. Sem pré-aquecimento, o gradiente térmico acentuado na ZAC produz martensite frágil e tensões residuais elevadas, com risco elevado de fendilhamento a frio.
Protocolo típico (EN 1011-3):
- Pré-aquecimento: 200–300 °C (dependente do teor de carbono)
- Temperatura entre passes: manter acima do pré-aquecimento
- TTPS: revenido a 650–750 °C imediatamente após soldadura, antes do arrefecimento total, para temperar a martensite e reduzir tensões residuais
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6. Aços Duplex — Equilíbrio de Fases
Os aços duplex (austenítico-ferrítico) têm microestrutura bifásica com proporções aproximadas de 50 % austenite / 50 % ferrite. A soldadura altera este equilíbrio:
- Na ZAC de alta temperatura (> 1200 °C), o aço torna-se totalmente ferrítico; durante o arrefecimento, a austenite reprecipita nos contornos de grão ferrítico.
- Se o arrefecimento for demasiado rápido, a proporção de austenite é insuficiente, comprometendo a resistência à corrosão por picadura (pitting).
- Se o aporte térmico for excessivo, precipitam fases intermetálicas (fase sigma σ, fase chi χ) a 700–950 °C, que fragilizam o aço.
Parâmetros críticos (EN ISO 15614-1 para duplex):
- Aporte térmico: 0,5–2,5 kJ/mm (conforme o grau)
- Temperatura entre passes: ≤ 150 °C
- Consumível: com 2–4 % Ni em excesso relativamente ao metal de base, para promover a reprecipitação de austenite
- Gás de purga: Árgon puro (sem O₂ nem CO₂) na raiz para evitar oxidação e perda de Cr
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7. Contaminação e Ferroxil Test
A contaminação por partículas de ferro (ferramentas, projecções de aço carbono) depositadas na superfície do inoxidável provoca corrosão galvânica localizada. Para verificar a ausência de contaminação após soldadura ou maquinagem, aplica-se o ferroxil test (solução de ferricianeto de potássio + ácido nítrico): a presença de ferro livre manifesta-se por coloração azul intensa.
Usar exclusivamente ferramentas dedicadas (mós, escovas de aço inoxidável) e proteger as superfícies durante as operações adjacentes.
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8. Consumíveis — Selecção Segundo EN ISO 3581 e EN ISO 14343
| Metal de base | Consumível recomendado | Norma |
|---|---|---|
| 304 / 304L | ER308L / E308L | EN ISO 14343 / 3581 |
| 316 / 316L | ER316L / E316L | EN ISO 14343 / 3581 |
| 321 (estabilizado Ti) | ER347 / E347 | EN ISO 14343 / 3581 |
| 2205 (duplex) | ER2209 / E2209 | EN ISO 14343 / 3581 |
| 410 (martensítico) | ER410 / E410 | EN ISO 14343 / 3581 |
Para juntas dissimilares entre aço inoxidável e aço carbono, usa-se frequentemente consumível ER309L, com maior teor de Cr e Ni para acomodar a diluição e manter a estrutura austenítica no metal depositado.
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Referências
- EN 1011-3:2000 — *Welding. Recommendations for welding of metallic materials. Part 3: Arc welding of stainless steels.* CEN, Brussels.
- EN ISO 3581:2003 — *Welding consumables. Covered electrodes for manual metal arc welding of stainless and heat resisting steels.* ISO/CEN.
- EN ISO 14343:2009 — *Welding consumables. Wire electrodes, strip electrodes, wires and rods for arc welding of stainless and heat resisting steels.* ISO/CEN.
- Lancaster, J.F. — *Metallurgy of Welding.* 6th ed. Abington Publishing, Cambridge, 1999.
- Chiaverini, V. — *Aços e Ferros Fundidos.* 7ª ed. ABM, São Paulo, 2002.