Intermédio

Zona Afectada pelo Calor (ZAC)

A Zona Afectada pelo Calor (ZAC) é a região do metal de base que, sem ter atingido a fusão, sofre alterações microestruturais irreversíveis em consequência do ciclo térmico imposto pelo processo de soldadura. A sua extensão e características determinam, em grande medida, a integridade mecânica da junta soldada.

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1. O Ciclo Térmico de Soldadura

Cada ponto da ZAC é sujeito a um ciclo térmico específico — aquecimento rápido seguido de arrefecimento — cuja intensidade depende da distância à linha de fusão e dos parâmetros operatórios.

O parâmetro fundamental é o aporte térmico efectivo (ET_ef):

$$ET_{ef} = \frac{\eta \times U \times I}{v}$$

onde:

  • η = eficiência térmica do processo (ex.: 0,80 para GMAW; 0,65 para GTAW)
  • U = tensão de arco (V)
  • I = intensidade de corrente (A)
  • v = velocidade de soldadura (mm/s)

A unidade é J/mm. Este valor rege a temperatura máxima atingida em cada ponto, o tempo de permanência a alta temperatura e a velocidade de arrefecimento.

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2. Temperatura de Pico — Fórmula de Rykalin

Para a soldadura de chapas, Rykalin (1953) estabeleceu a relação entre a temperatura de pico (T_p) e a distância (y) à linha de fusão:

$$\frac{1}{T_p - T_0} - \frac{1}{T_f - T_0} = \frac{ET_{ef}}{4{,}13 \times \rho c \times t \times y^2}$$

Parâmetros:

  • T₀ = temperatura inicial da peça (°C)
  • T_f = temperatura de fusão do material (≈ 1500 °C para aços C-Mn)
  • ρc = capacidade calorífica volumétrica (≈ 0,0044 J/mm³·°C para aço)
  • t = espessura da chapa (mm)
  • y = distância à linha de fusão (mm)

Exemplo numérico

Dados: ET_ef = 720 J/mm; T₀ = 20 °C; T_f = 1500 °C; t = 10 mm; y = 1,5 mm.

$$T_p \approx 20 + \frac{1}{0{,}000845} \approx \mathbf{1204\ °C}$$

A 1,5 mm da linha de fusão, o metal atinge cerca de 1200 °C — temperatura suficiente para grosseirização significativa do grão austenítico.

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3. Sub-zonas da ZAC

Sub-zonaT_p (°C)Microestrutura típicaPropriedades
Grão grosseiro (CGHAZ)1100–1500Grão austenítico muito grande; martensite ou bainite superiorResistência elevada; tenacidade reduzida
Grão fino (FGHAZ)900–1100Grão austenítico refinadoTenacidade aceitável
Intercrítica (ICHAZ)723–900Transformação parcial; heterogeneidade localDureza variável; risco de fragilização
Recozimento subcrítico (SCHAZ)200–723Sem mudança de fase; alívio de tensõesLigeira redução de resistência

A sub-zona de grão grosseiro é a mais crítica: a austenite dissolve os carbonetos a alta temperatura, permite crescimento ilimitado do grão e, após arrefecimento rápido, produz microestruturas frágeis (martensite de alto carbono, bainite superior).

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4. Velocidade de Arrefecimento e Espessura Crítica

Chapa fina (fluxo bidimensional): $$\frac{dT}{dt} = \frac{2\pi \times \lambda \times (T-T_0)^3}{ET_{ef}^2 \times \rho c}$$

Chapa espessa (fluxo tridimensional): $$\frac{dT}{dt} = 2\pi \times \lambda \times \rho c \times \left(\frac{T - T_0}{ET_{ef}}\right)^2$$

Espessura de transição: $$h_t = 0{,}9 \times ET_{ef}\sqrt{\frac{\rho c}{\lambda \times (T_c - T_0)}}$$

O Δt₈/₅ obtido compara-se com as curvas CCT do aço para prever a microestrutura final.

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5. Equivalente de Carbono — EN 1011-2

$$CE = C + \frac{Mn}{6} + \frac{Cr + Mo + V}{5} + \frac{Ni + Cu}{15}$$

CERisco de fendilhamento a frioAcção recomendada
< 0,35BaixoSem pré-aquecimento
0,35–0,45ModeradoPré-aquecimento 75–150 °C
0,45–0,60ElevadoPré-aquecimento 150–300 °C
> 0,60Muito elevadoPré-aquecimento > 300 °C

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6. Soldadura Multipasso

Cada cordão successivo reaquece a ZAC anterior. Este reaquecimento pode refinar o grão grosseiro (melhoria de tenacidade), originar zonas intercríticas locais (risco em aços de alto carbono) ou temperar martensite do passe anterior. A sequência e a temperatura entre passes devem ser definidas no WPS conforme EN ISO 15614-1.

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7. Medidas de Controlo Práticas

  1. Aporte térmico — Respeitar os limites do WPS.
  2. Pré-aquecimento — Fundamental quando CE > 0,35.
  3. Temperatura entre passes — Manter dentro dos limites do WPS.
  4. TTPS — Alívio de tensões a 550–650 °C para aços C-Mn.
  5. Consumível de baixo hidrogénio — HD ≤ 5 ml/100 g de metal depositado.

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Referências

  1. EN 1011-2:2001 — *Welding. Recommendations for welding of metallic materials. Part 2: Arc welding of ferritic steels.* CEN, Brussels.
  2. Lancaster, J.F. — *Metallurgy of Welding.* 6th ed. Abington Publishing, Cambridge, 1999.
  3. Chiaverini, V. — *Tecnologia Mecânica: Estrutura e Propriedades das Ligas Metálicas.* Vol. 1. McGraw-Hill, São Paulo.
  4. Rykalin, N.N. — *Berechnung der Wärmevorgänge beim Schweissen.* VEB Technik, Berlin, 1953.
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