Zona Termicamente Afetada (ZTA): Microestrutura e Propriedades

Introdução
A Zona Termicamente Afetada (ZTA) — em inglês HAZ (Heat Affected Zone) — é a região do metal base adjacente ao cordão que não fundiu mas foi aquecida a temperaturas suficientemente altas para alterar a sua microestrutura. É a zona mais crítica da junta soldada: as suas propriedades mecânicas podem ser muito diferentes das do metal base original, especialmente em aços de alta resistência ou tratados termicamente.
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Gradiente de Temperatura na ZTA
Durante a soldadura, existe um gradiente de temperatura contínuo entre o metal fundido (>1500°C) e o metal base não afectado (<200°C). Cada sub-zona da ZTA corresponde a uma gama de temperaturas de pico e, consequentemente, a uma região diferente do diagrama Fe-C.
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Sub-zonas da ZTA (aços hipoeutetóides)
1. Zona de Fusão Parcial (>1490°C)
Fronteira entre o metal depositado e a ZTA. Grão muito grosseiro, zona de elevado risco de fissuração.
2. Zona de Crescimento de Grão (1100–1490°C)
- Temperatura acima da linha de solidus mas abaixo da fusão total
- Austenite com crescimento de grão muito pronunciado (grão grosseiro)
- Após arrefecimento: martensite (em aços com CE elevado) ou bainite superior (em arrefecimento mais lento)
- Propriedades: dureza elevada, tenacidade muito baixa → zona mais crítica da ZTA
- Remédio: aporte térmico controlado (limitar t8/5), pré-aquecimento
3. Zona de Refinamento de Grão (900–1100°C)
- Temperatura ligeiramente acima de A₃ → austenite de grão fino
- Após arrefecimento: ferrite + perlite de grão fino
- Propriedades: excelentes — melhor que o metal base original
- Esta zona é o objectivo dos tratamentos de normalização
4. Zona Intercrítica (727–900°C — entre A₁ e A₃)
- Transformação parcial: apenas parte da ferrite se transforma em austenite
- Após arrefecimento: microestrutura mista (ferrite + ilhas de martensite/bainite)
- Em aços Q&T (temperados e revenidos): degradação das propriedades do revenido
- Fenómeno ICHAZ: em aços de alta resistência, pode ser a zona mais fraca
5. Zona Subcrítica (<727°C)
- Abaixo de A₁: sem transformação de fase
- Efeito: alívio de tensões e sobre-revenido (softening) em aços Q&T
- Em aços normalizados: sem efeito significativo
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Tempo t8/5 — O Parâmetro Chave
O t8/5 é o tempo de arrefecimento entre 800°C e 500°C. É o parâmetro que controla a microestrutura na ZTA de grão grosseiro:
- t8/5 curto (arrefecimento rápido) → mais martensite → dureza alta, tenacidade baixa
- t8/5 longo (arrefecimento lento) → mais ferrite/perlite → dureza baixa, tenacidade alta
O t8/5 depende do aporte térmico, da temperatura de pré-aquecimento e da espessura. A EN 1011-2 fornece fórmulas e nomogramas para calcular t8/5 em função destes parâmetros.
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Dureza na ZTA
A EN ISO 15614-1 e a EN 1011-2 estabelecem limites máximos de dureza na ZTA:
| Material | Dureza máxima (HV10) |
|---|---|
| Aços de construção (EN 1011-2) | 380 HV |
| Aços resistentes a baixas temperaturas | 350 HV |
| Aços inoxidáveis martensíticos | 400 HV |
Dureza > limite → risco de fissuração a frio e fragilização.
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Medidas para Controlar a ZTA
- Limitar o aporte térmico: reduz o crescimento de grão e o volume da ZTA
- Pré-aquecimento: aumenta t8/5 → evita martensite em aços com CE > 0,40%
- Temperatura entre passes: máx. recomendado para não acumular calor em excesso
- PWHT: alívio de tensões e revenido da martensite formada
- Aços de grão fino (V, Nb, Ti): inibem o crescimento de grão austenítico → ZTA mais fina
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Normas de Referência
- EN 1011-2:2001 — Soldadura. Recomendações para a soldadura de materiais metálicos. Parte 2: Soldadura por arco de aços ferríticos
- EN ISO 15614-1 — Especificação e qualificação de procedimentos de soldadura
- EN ISO 9015-1 — Ensaio de dureza em juntas soldadas por fusão em aço
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